sábado, 11 de outubro de 2008

A Clockwork Orange


Faz quase um mês desde a última postagem, já que acabei me focando em outras coisas e não tive tempo para ver muitos filmes nesse meio tempo. Mas como não preciso acabar de ver algum para comentá-lo, falarei então sobre um dos maiores clássicos do Cinema, um dos símbolos da violência explícita cinematográfica na década de 70, e uma das obras-primas de Stanley Kubrick; Laranja Mecânica.

Lembro-me que foi um pouco difícil até eu conseguir assiti-lo da primeira vez. Minha paixão por Cinema começou desde criança, e portanto desde essa fase tive (e tenho) vontade de acompanhar a evolução dessa Arte, em suas maiores expressões. Mas claro, sendo pirralho não capto todos os significados de todos os filmes - e muita coisa passa desapercebida e portanto não vale à pena se esforçar para assistir algo que não dá pra entender completamente.

Os filmes violentos podem ser divididos em três tipos: os que pretendem transmitir uma mensagem, os que pretendem apenas chocar ou o mais raro, os que pretendem derrubar barreiras, mostrar algo e ainda chocar. Bom, quase todos os cineastas que produzem um filme desse nível, autodefinem suas obras como se fizessem parte desse último padrão. Quase todos são pretensiosos querendo mostrar "algo", quando na verdade é só apenas um bom escândalo que procuram.

Muitos adolescentes, em sua fase de rebeldia, procuram algo artístico para expressar sua raiva para com o mundo, e a indignação interna que sentem. Por isso aquela imagem clichê de adolescente roqueiro trancado no quarto é tão conhecida - é um processo natural na vida de várias pessoas. Pode-se dizer que um filme que expresse essa fase (assim como na música poderia ser Kiss ou Led Zeppelin..) é Laranja Mecânica - e muito desses 'indignados' dizem ser esse seu filme favorito, quando na verdade pouco têm a dizer a respeito dele e suas opiniões críticas baseiam-se naquilo que leram ou escutaram outros falando. Raramente têm um senso mais elaborado.

A imagem de Alex é emblemática - e quem entende um mínimo de Cinema, reconhece esses pôsteres à distância.



Alex é um garoto de classe média que vive numa Inglaterra não-muito-futurista, mas alguns anos à frente. Ele bate em mendigos e em idosos, estupra, rouba de vez em quando e é viciado numa droga líquida bem parecida com o leite. Além disso, é apaixonado por Beethoven, a nona sinfonia é sua grande inspiração.
O que faz Alex ser assim? Nada lhe falta; tem uma família compreensiva, uma casa confortável. Depois de um incidente, que termina num assassinato, ele é preso, e após uma seleção, usado no tratamento Ludovico, que muda completamente sua índole e o torna apresentável à sociedade.

O filme é grandioso; as cenas de violência fantásticas, com um tom sarcástico e irônico. A trilha sonora é algo excepcional - as músicas não poderiam ter sido melhor escolhidas.


Prefiro não colocar minha interpretação aqui, mas pela sinopse já fica claro que a obra é uma crítica feroz à sociedade, e o filme torna-se supreendentemente profético nos dias atuais. É, sem dúvida, um dos melhores filmes já feitos, e um dos meus favoritos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Marie Antoinette


Sempre fui uma pessoa exagerada, nunca foi comedido. Adoro dramatizar minhas histórias para que fiquem fabulosas, ou abusar de opiniões pessoais, dizer que amo isso e detesto aquilo.

Bom, como vocês vêem, isso é um exagero. Entenderam? =D

Ok, momento idiota à parte, o que quero dizer é que o filme em questão me apaixonou tanto que fui assisti-lo três vezes no cinema, e ainda tenho os ingressos guardados de lembrança.

Ele é muito importante para mim em diversos aspectos; primeiramente porque foi lançado em abril do ano passado, e 2007 foi um ano marcante na minha vida. Os primeiros meses dele foram de uma turbulência que nunca antes tive; afinal, já estava com uma idade relativamente adequada para sair com freqüência, ter consciência dos meus atos e conseqüências, coisas que não tinha quando morei aqui primeiramente (pra quem não sabe, morei 8 anos em Petrópolis, depois vim para cá e fiquei por 4 anos, voltei para Petrópolis por dois anos e vim de novo. Sim, um vai-e-vém incrível), já que era bem pequeno.
Além disso, a excitação de poder sair para mil lugares imagináveis na 'imensidão' do Rio (se comparada ao centrinho petropolitano, é um muundo de possibilidades), meus grandes amigos por perto, a independência que minha mãe sempre deu. Tudo isso junto num momento que já é grandioso por natureza, na vida de qualquer adolescente. Portanto, foi um período bastante frenético, esses 12 meses de 2007; senti a urgência de recuperar o tempo de diversão desperdiçado em petrópolis, e saí para mil lugares aqui. E o Vestibular parecia tão longe! E as coisas tão possíveis, tão perto..





Em Maria Antonieta, o que Sofia Coppola menos quis foi criar uma cinebiografia de uma personagem emblemática da História Francesa (e mundial). O filme trata de mostrar a árdua vida da rainha que, casada aos 15, teve na não-consumação da união com Luís XVI um problema enorme, principalmente diplomático; afinal, o casamento poderia ser anulado, representando a quebra de aliança da Áustria (a rainha era desse país) com a França. Além disso, a esnobíssima corte francesa, que não poupava a rainha de boatos, mentiras deslavadas e difamações.
Ok, parece uma biografia até agora. No entanto, o que a diretora pretende mostrar é o sofrimento psicológico da rainha; e, principalmente, o quão difícil pode ser uma vida que aos olhos do mundo inteiro, foi a mais fácil que um ser humano jamais poderia ter.

E é aí que está o grande charme e significado do filme. A trilha sonora, insanamente boa, mistura os cravos de Vivaldi com as guitarras do Strokes, passando pela bateria do The Cure. No fundo, acaba que o que menos a Sofia Coppola pretende é retratar Maria Antonieta; esta acaba sendo uma metáfora para a juventude moderna. Pequenos e grandes elementos, num conjunto, retratam isso; começando pelas músicas contemporâneas, que é uma referência óbvia; assim como o aparecimento de um All Star roxo numa das cenas de consumismo da rainha (que foi interpretado pelos afobados como um erro gravíssimo de filmagem, quando na verdade foi mais uma referência óbvia à cultura pop). Em falar em consumismo, é a isso que se resume a vida de Antonieta quando seus objetivos não são alcançados; ela joga, compra, bebe, fuma, conversa. E quando cansa, vai pro Petit Trianon, com amigos.

Parece fácil, mas é difícil. Uma das sensações mais angustiantes que existe é o momento em que você para e percebe que nada te falta; e a infelicidade é enorme. Até a Alanis retratou isso em Offer, sua música do cd Feast on Scraps. É a dor de não ter dores.

E a ligação forte que tenho com esse filme, além de retratar de uma forma única a nossa sociedade podre e fútil de hoje, que de nada se diferencia daquela do século XVIII, a não ser pelos iPods e celulares, é o fato de representar o que vivi nos primeiros meses do ano passado. Vivendo, gastando a mesada, saindo, sentindo-me livre e justamente preso por essa liberdade. Foi uma época muito feliz; significou muito, mas só poderia ter ocorrido naquela época, naquele momento, nem antes nem depois. Cheguei a pensar que não havia problema em ser fútil, mas por conclusões pessoais, descobri que há sim; a infelicidade inconsciente está completamente relacionada.

Recomendo a todos esse filme. É maravilhoso de asisstir, tanto como divertimento, tanto como um filme sério e maduro. E é um dos raros que permite essa versatilidade. Para todos aqueles que têm sensibilidade aguçada - todos os leitores do blog - sei que sentirão uma sensação de vazio quando o filme acabar. Será que é nesse vazio que vivemos? Sem emoções sinceras, apenas falsas, prentensa cultura, quando na verdade são idiotizações massificadas, sem amor, quando na verdade fingimos apenas carinho? Talvez.
Taí o individualismo a que cada vez mais nos cercamos.

sábado, 13 de setembro de 2008

O Julgamento de Nuremberg

O Julgamento de Nuremberg é a refilmagem do clássico de mesmo título produzido em 1961, cuja refilmagem traz Alec Baldwin, Cristopher Plummer, Max von Sydow, dentre outros.

Como o título sugere, trata-se de uma obra que procura retratar fielmente o drama dos Países Aliados ao fim da guerra: o que fazer com os oficiais nazistas? Ir a julgamento parece o mais óbvio e fácil, no entanto sabemos o quão complicada é a política internacional; foi um tanto difícil arranjar acusações plausíveis contra os líderes em questão, já que nunca antes alguém havia sido acusado por crimes de guerra.

O filme é realista e cru ao reproduzir ipsis litris todos os argumentos da promotoria e dos réus, o que choca pela crueldade e pela sinceridade convicta de muitos dos oficiais. Dentre depoimentos de sobreviventes, filmes verdadeiros mostrando o horror dos campos de concentração, a inabalável palavra dos alemães acusados, a teorização filosófica sobre a imortalidade de um ideal, a obra cinematográfica caminha entre um dos mais obscuros episódios da História.

Mais insano do que aquela parcela de pessoas que ainda acredita o Holocausto nunca ter de fato existido, é alguém nunca ter ouvido falar nele (na minha sala de aula, duas pessoas descobriram no mesmo dia - em intervalo de tempo curto - o que foi), uma 'medida preventiva', que punia antecipadamente os crimes que viriam a ser cometidos por judeus. Um oficial julgado, responsável pelo famoso campo de Auschwitz, afirmou terem morrido em sua mão 2,5 milhões de judeus, numa média de 90 mil por dia.

Um dos acusados, já ao final do julgamento, pronunciou o seguinte, sobre o tamanho sucesso de Hitler em sua busca utópica e doente rumo à sociedade perfeita:

"Quanto mais o mundo tiver tecnologia, mais a liberdade individual e a independência da humanidade se tornam essenciais". Com essas sábias palavras, o líder nazista reconhece as barbáries e pede que os demais, assim como ele, sejam punidos por esse mal que, direta e indiretamente, proporcionaram evoluções macabras aos meios de destruição e aniquilamento.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Terra em Transe


O cinema nacional encontra, nos tempos atuais, o seu tão demorado auge. De uns dez anos para cá, as boas safras de filmes brasileiros têm feito muitas pessoas reverem seus conceitos quanto à nossa capacidade cinematográfica, e se a grande maioria não muda de opinião, pelo menos torna-se mais paciente . Exemplos claros disso são O Auto da Compadecida, Cidade de Deus e o mais recente 2 Filhos de Francisco, que tornou-se a obra que mais arrastou brasileiros ao cinema (num filme nacional, desconsiderando os blockbusters estadunidenses). Estamos chegando a um ponto em que dividimos nossa preferência: e agora, vou pagar pra ver um nacional ou um americano?


No entanto, não é necessariamente injusto que apenas agora o brasileiro tenha se animado a assistir um filme que fale sua língua. Primeiramente, nunca tivemos uma qualidade muito aprimorada; quase que invariavelmente, os filmes nacionais abordam os tão clichês sexo/palavrão/violência, que depois de uma meia-dúzia de obras esquecíveis seguindo essa linha, aborrecem e desencantam. E um detalhe que incomoda muito é o som dos filmes, que nos força a algo ridículo: colocar legenda pra entender por completo os diálogos.


Mas, numa atiga década de 70, tivemos filmes maravilhosos que barram consideravelmente os atuais. Um exemplo disso, é Terra em Transe, de Glauber Rocha.

Rocha notabilizou-se principalmente por esse filme e Deus e o Diabo Na Terra do Sol, elogiadíssimo na época.

Bom, minha humilde opinião a respeito de Terra em Transe é a mais boba possível: é um filme ótimo, em quase todos os sentidos, e não há muito a acrescentar.

Essencial para quem quer se aventurar pela filmografia histórica nacional, ou mesmo quem pretende ver os clássicos fundamentais do cinema e não tem preconceito para com o cinema brasileiro (apesar daqueles poréns todos que citei ali encima), a obra é assustadoramente atual.

Glauber foi um grande intelectual na Ditadura Militar, e contribuiu bastante para nossa história recente cultural.


Terra em Transe é um filme político, ambientado no fícticio país de El Dorado, onde inúmeras traições eleitorais, mudanças de partido e ideologia acontecem. É assustadoramente atual - e como o filme serve de metáfora para a América Latina, é válido e certo afirmar - que nada, em nossa América do Sul, mudou. Detalhe: o filme completa 41 anos de existência agora em 2008.


Sua linguagem poética (literalmente, não é maneira sutil de observar o filme. Ele é, muitas vezes, declamado e recitado com rimas floreadas e afetadas) e duração um pouco arrastada o tornam um pouco cansativo, mas excelente, de qualquer maneira.

Recomendo.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Hair!


Existem filmes que simbolizam ideais, pensamentos, revoluções e músicas de uma geração inteira. Um exemplo ma-ra-vi-lho-so disso é Hair, filme de Milos Forman de 79, que trata de forma irônica, cômica, gritante, dançante, empolgante, a geração de 60.


Forman é conhecido por seus filmes arrasantes e inesquecíveis, como Amadeus, biografia de Mozart adaptada de uma peça da Broadway. Com Hair, fixou-se como um diretor excepcional, que consegue cativar o público das mais variadas idades em filmes que, ainda que extensos, muito prazerosos.


O filme trata sobre temas que marcaram a referida época, como a Guerra do Vietnã, o amor livre, as drogas. Enfim, tudo que já foi tratado em milhões de filmes mas que sempre é interessante, e dá uma sensação nostálgica mesmo àqueles que nasceram muito depois dessa época de revoluções.


Musicais perderam força à medida que o tempo foi passando, tendo sido a década de 30 seu auge. Hair faz um estilo "livre" de filme, onde as músicas maravilhosas dão um ritmo louco ao enredo, e normalmente os protagonistas seguem um estilo descontraído de dançar, sem coreografia definida. Não é metódico ao mostrar passos alinhados, como grande parte deles.


As letras ousadas do filme lembram o também imperdível Jesus Cristo Superstar, adaptação musical da vida de Cristo, transposta para a loucura dos (adivinhem) anos 60.

Os clássicos justificam seu título, e esse não é excessão.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

David Lynch


Ontem fui reassitir Inland Empire, já que por algum motivo o Espaço de Cinema resolveu reexibir o filme, que entrou em circuito em dezembro do ano passado. Acredito que a volta dele tenha sido pelo fato do diretor David Lynch ter estado semana passada em São Paulo, pela primeira vez, no intuito de divulgar seu primeiro livro e também um projeto pessoal muito interessante que já foi colocado em prática em algumas escolas dos EUA, que consiste em integrar aos sistemas de aula exercícios de meditação transcendental, que segundo ele e estudos comprovados, ajudam no fortalecimento do raciocínio e na diminuição significativa da violência.

Águas Profundas não é um livro de pretensão literária que muito dos diretores resolvem lançar quando já fizeram de tudo. Trata-se de um pequeno manual de esclarecimento, no qual conta como, quando e onde teve inspiração para utilizar recursos unicamente inovadores no cinema.

Lynch é conhecido no cenário alternativo por delírios visuais indescritíveis. Sua versatilide como diretor, roteirista, músico e artista plástico mostrou-se tão surpreendente quanto improvável ao longo das décadas, desde que seu primeiro filme de sucesso foi o tristíssimo O Homem-Elefante, que conta a história verídica de John Merrick, que devido à Síndrome de Proteus, nasceu com o corpo todo deformado e virou uma atração circense. Quando encontra um médico compreensivo e solidário (interpretado magistralmente por um relativamente novo Anthony Hopkins), têm a sua primeira chance na vida de ser tratado como um ser-humano digno.
Adquiriu notoriedade convicta quando lançou na década de 90 a série Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer, que contava a história de uma mulher assassinada (A Laura do título) e as investigações de um detetive até chegar à solução do caso. Um enredo desses que parece normal e sem atrativos, torna-se viciante quando misturado com elementos presentes na filmografia de Lynch. Por exemplo, o detetive (interpretado por Kylan MacLaughlan) tem de tomar chá com a Senhora do Tronco para obter informações sobre o assassino, e tem insights reveladores durante seus sonhos, onde, por exemplo, uma prima de Laura Palmer idêntica à mesma está sentada num quarto vermelho, vestindo vermelho, numa poltrona vermelha, falando coisas desconexas, ouvindo jazz e observando um anão à sua frente a dançar. Essa cena é um dos marcos de David Lynch, e em seu livro ele explica de onde veio a inspiração.


No entanto, o forte de Lynch sempre foi criar tramas surreais, oníricas e extremamente complexas e difíceis. A exemplo disso, pode-se citar A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e o mais recente Império dos Sonhos. Como obviamente dá para reparar, o plano do subconsciente é o que predomina em suas obras, onde muitas vezes não há a distinção óbvia do passado, presente e futuro.

Para abordar os temas de forma mais obejtiva, vou destribuí-los em tópicos, que aqui seguem:

-Compreensão das obras: há muitos fãs que declaram entender tudo dos longas de Lynch. A pergunta que deve persistir: mas poxa, é tão difícil entender seus filmes assim? Sim, acredite. Mas o grande problema está na maneira como as pessoas querem chegar à compreensão: acostumados com o processo racional de entendimento, elas esquecem de seguir as partes mais sensíveis da mente. O abstrato de seus filmes, a loucura, não podem ser apreciadas se você estiver preparado para assitir um enredo provável e lúcido. É a mesma coisa que tentar compreender uma pessoa louca: dá para fazer isso, sendo são? Óbvio que não. Por isso, se a pessoa tem vontade de se aventurar por um lado diferente do sensorial, é preciso viajar, literalmente. E valham-se interpretações. O mais importante é deixar-se levar: sensibiliar-se, sentir, se emocionar, se comover.


O grande problema - e é isso que limita a platéia que gosta de seus filmes - é que todos estão acostumados àquela fórmula perfeita de se fazer cinema. Princípio, meio e fim. Felicidade, melancolia, clímax, desfecho otimista. Duração curta. Trilha sonora beem de acordo com os momentos de tensão. E é aí que está todo o encanto e genialidade do cinema de Lynch; fugindo do óbvio, cria tramas de suspense que até o último instante, vão de acordo com o que estamos acostumados a ver; mas aí no clímax, o enredo enreda-se por caminhos obscuros da mente, imagens assustadoras.
Lynch brinca com o telespectador. Brinca, mas não zomba. (Aliás, foi até engraçado: quando fui no cinema ano passado para asssitir Império dos Sonhos, em um determinado momento a protagonista fala: I don't know what I'm doing here. E uma senhora atrás de mim comenta: NEM EU!)
Mas essa confusão é básica.

Motivos para tanta decepção: Cinema é feito para se divertir. Sim, concordo, mas não somente. Filmes-denúncia, políticos, reveladores, sociais e culturais são essenciais para refletir a sociedade. Entendo que hoje em dia, principalmente, cerca de 80% do povo procura assitir um filme para relaxar, esquecer os problemas, aliviar as tensões. Ou como fundo de tela para um belo beijo (digno de cinema). Por isso, é até compreensivo que as pessoas saiam no meio da projeção quando se deparam com um filme mais arrastado e surreal, porque definitivamente têm mais o que fazer do que assitir as loucuras de um diretor. Mas não adianta convencer alguém de que um filme que ela não gosta é bom, é questão de ver e gostar e acabou. Portanto, os motivos de tantos odiarem seus filmes já tá mais do que explicado - muita gente não gosta de assistir um filme sem pé nem cabeça.

Para os que gostam: Para os fãs, como eu, Lynch é único por inserir em seus filmes pessoais elementos inimagináveis. Ontem, pela primeira vez, das três que vi Inland Empire, senti um medo terrível. Por muitas vezes, seus enquadramentos nos fazem sentir-nos como num sonho "de verdade". Além disso, a cada vez que assisto, percebo um detalhe, uma minúcia, e que se encaixada com determinada cena, fazem mudar toda a interpretação do filme. Literalmente, a cada vez que são vistos, seus filmes são mais complicados. E mais fáceis, ao mesmo tempo. Além disso, um ponto a seu favor é a versatilidade.

Os problemas: Laura Dern quando interpretou Nikki Grace/Susan em Inland Empire, afirmou ter interpretado na verdade três personagens. Lynch afirmou terem sido quatro. Mas dependendo de que aspecto psicológico e de personalidade você abordar, podem variar até cinco. Inland pode ter sido o último filme a concluir a trilogia sobre Hollywood, começada com Estrada Perdida. Em todas, há a decadência de atrizes que acabam envolvendo-se de uma forma destrutiva com personagens ou filmes. É duplamente metalingüístico: é um filme-dentro-de-um filme, e autoexplicativo (cabe a alguém desvendá-lo).
Esse último é o mais surreal de todos. Das três horas de duração, duas são destinadas à jornada da personagem do filme (dos dois filmes) e seus devaneios. É simplesmente genial.


Se alguém por acaso se interessar e sem no entanto nunca ter visto algo dele, recomendo começar por Cidade dos Sonhos(Mulholland Dr.) , meu favorito. Depois, aconselho O Homem Elefante - e sugiro a comparação entre eles. Depois, caso tenha despertado verdadeiro gosto, aventurem-se pelos demais, desde Eraserhead - seu primeiro, e o mais absurdo - até Inland Empire, se tiverem disposição para perder três horas sabendo que muito provavelmente, de duas uma: ou não entenderá porra nenhuma (que é exatamente com essa cara que todo mundo sai do cinema) ou terá uma interpretação completamente diferente da de todo mundo. Genial, não?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Nesses dois dias, vi filmes bem diferentes entre si quanto ao gênero, ano de produção e intuito. Foram eles O Mágico de Oz (acho que não tive infância, só vi esse filme recentemente...), O Anjo Exterminador e Batman (O Cavaleiro das Trevas).



The Wizard of Oz sempre foi a história infantil com a qual mais me identifiquei, passando longe de contos como Pinóquio (ainda que meu respeito seja grande), ou A Bela Adormecida. Bom, como nem todos sabem, vale lembrar que todas essas animações musicais que vimos quando crianças não são da Disney, e sim fábulas antigas ou clássicos literários, caso de Alice no País das Maravilhas ou A Bela e a Fera. Quase todos eles têm um significado, seja apenas uma advertência ou o que posteriormente seria motivo de teses e mais teses psicanalíticas que gerariam grandes Complexos (como o de Peter Pan).


O Mágico de Oz e A Bela e a Fera são as fábulas que mais gosto, as que mais me identifico e acho intrigantes. O fato de adorar Judy Garland e ser um clássico do Cinema, foram os fatores que me fizeram ver logo o primeiro. Uma adaptação belíssima do segundo foi feita em 1933 por Jean Cocteau, onde os elementos principais da história foram abordados.


Vendo Oz, notamos logo porquê o filme tornou-se imortal. É maravilhoso em músicas, cores, ênfases e atuações. E até em efeitos especiais (já imaginaram o que era fazer uma casa voar num tornado em 1939?). Foi considerado o melhor filme familiar de todos os tempos, e sua mensagem é bem mais sutil do que parece: às vezes, o que procuramos está mais perto do que imaginávamos, e só precisamos de situações desafiadoras que nos mostrem isso.


O Anjo Exterminador é um filme do aclamado diretor Buñuel, considerada sua obra-prima surrealista. Três diretores são mestres em fazer filmes adultos e difícies: Bertolucci (já mencionado), Pasolini e Buñuel.

Esse não é uma exceção, pertencendo a quem pertence.

Na história, um luxuoso jantar é oferecido na casa de um rico casal, que convida vários amigos (igualmente da alta sociedade) após uma ópera. Inexplicavelmente, os convidados não conseguem sair da mansão, e a decadência e as farsantes começam a prevaleçer. E valham-se interpretações ao filme.

Claramente, o obra não tenta focar no fato de por que as pessoas não conseguem sair da casa - e se alguém vir o filme, perceberá que sequer tentaram - mas sim em como as pessoas são no seu íntimo. A projeção fez-me lembrar da tristeza de Ensaio Sobre a Cegueira - que dadas as devidas proporções, tem lá suas semelhanças. É um clássico do cinema europeu que inspirou muito - inclusive o Big Brother - e que tem suas divergências no público.



E Batman é simplesmente maravilhoso. Definitivamente, Heath Ledger arrasou como o Coringa, Christian Bale fez jus ao papel, Aaron Eckhart também, e Maggie Gylenhaal igualmente. Efeitos especiais m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s, enredo original e trama muito bem bolada. Um arraso de filme, justifica toda a publicidade em torno dele. é FOODA!